sábado, 7 de novembro de 2015

Recuperação ambiental na região de Bento Rodrigues vai demorar de 10 a 15 anos


Há quem defenda revisão dos modelos de exploração de minério


Gladyston Rodrigues/EM/D.A PRESS

Com a ruptura da barragem, a comunidade de Bento Rodrigues, vegetação, margem e leito de rios foram tomados pela lama: inicialmente, foi descartado risco de material ser tóxico (foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A PRESS )
Se a tragédia que devastou o subdistrito de Bento Rodrigues vai demorar a ser superada pelos moradores, a natureza também vai cobrar o seu tempo pela recuperação. Especialistas estimam que vá demorar pelo menos uma década para que a vegetação se restabeleça na região engolida pela lama, possibilitando o desenvolvimento de um novo ecossistema. A revitalização total, porém, é difícil de determinar, já que foram atingidas margem e leito dos rios e a própria comunidade.
“O que aconteceu foi uma degradação total pelo rompimento da estrutura vegetativa. Daqui um tempo, o solo vai aproveitar este material que veio com a lama: ferro, sílica, fósforo, manganês, alimentos naturais das plantas. As experiências que temos mostram que, depois de 10, 15 anos, a recuperação da vegetação é quase plena”, explicou o gerente de meio ambiente da Fiemg, Wagner Soares Costa. “O que pode acontecer é que algumas espécies tenham sensibilidade maior, sendo extintas naquela região.”

Segundo Wagner, a partir desta revegetação, animais como roedores retornam, reequilibrando a cadeia alimentar. “Neste momento, pelas imagens, ficamos assustados, mas depois tudo se adequada. Vamos ter uma várzea, que é rica organicamente e, em três, quatro anos, se tudo ocorrer bem, alguma evolução”, detalha.

Para o geólogo Allaoua Saadi, do Departamento de Geografia do Instituto de Geociências da UFMG, o tempo de regeneração é difícil de determinar. “São muitos fatores envolvidos. Temos a questão da natureza e da sociedade, que caminham juntas. Leitos e margens dos rios foram afetados e cada um vai ter uma reação diferente. A gente só vai saber quando tiver acesso à área”, afirmou. “Do ponto de vista social, a questão também é complexa: essas pessoas vão querer continuar vivendo lá? Fechar a mina é impensável, pois sabemos o impacto econômico”, completou.

Há avaliações bastante negativas, como a da coordenadora do Grupo de Estudos em Temáticas Ambientais (Gesta) da UFMG, Andréa Zhouri. “Em geral, são trabalhadores que viviam ali que terão de ser realocados, porque será inviável voltar a morar na área devastada. São mais de 10 quilômetros de lama, não tem recuperação”, alertou. “A região está saturada da mineração e não é mais prudente licenciar obras. É um modelo colonial, ultrapassado, que precisamos discutir e rever.”
Corpo de Bombeiros/divulgação
Materiais tóxicos
Especialistas afastaram, em princípio, a hipótese de haver materiais tóxicos. “Esse tipo de mineração só faz lavagem do minério. Em primeira avaliação, o poluente não é muito grave. Tem que se fazer análise, pois se tiver algum material tóxico, como arsênio, zinco, por exemplo, precisará ser investigado e cobradas explicações”, afirma Saadi.

http://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2015/11/07/interna_gerais,705421/recuperacao-ambiental-na-regiao-de-bento-rodrigues-vai-demorar-de-10-a-15-anos.shtml

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Tsunami de lama avança mais de 100 quilômetros e pode chegar ao Espírito Santo


Após arrasar Bento Rodrigues, deixando pelo menos 13 desaparecidos, mancha de resíduos inunda distritos e cidades e já corre pelo Rio Doce. Barragens operam para amortecer danos



Corpo de Bombeiros/divulgação
O vagalhão de água, lama e rejeitos liberado pela maior tragédia da mineração na história de Minas Gerais atingiu ontem a Bacia do Rio Doce, varrendo pelo caminho povoados, cidades e cursos d’água e acrescentando uma nova dúvida às dezenas de perguntas ainda sem respostas em torno do desastre: até onde chegarão os danos ambientais causados pelo rompimento de barragens da mineradora Samarco? Após arrasar o povoado de Bento Rodrigues, a mancha atingiu os cinco distritos de Mariana pelo caminho e fez o Rio Gualaxo do Norte subir repentinamente cinco metros, inundando a cidade vizinha de Barra Longa. Agora, avança por um dos maiores rios de Minas – já castigado pela crise hídrica e pela poluição – e ameaça afetar municípios até no Espírito Santo, onde o manancial deságua no Atlântico. O alerta foi emitido pelo Serviço Geológico do Brasil (CPRM), que mantém monitoramento de hora em hora da bacia. Segundo o órgão, a onda se desloca pela calha do Rio Doce, onde atingiu a Usina Risoleta Neves (Candonga), a 111 quilômetros de Mariana, logo na manhã de ontem. A previsão é de que Governador Valadares, a maior cidade mineira no curso do acidente, sinta os efeitos na madrugada de amanhã.
Segundo a Agência Nacional de Águas, o Operador Nacional do Sistema Elétrico está coordenando manobras em regime especial em barragens ao longo da bacia, para amortecer o volume da onda. Pelo menos 15 cidades são alertadas sobre efeitos do tsunami que liberou de uma vez volume de rejeitos equivalente ao rompimento simultâneo de nove represas do porte da Pampulha, em BH. No caminho, além de Valadares estão Ponte Nova, Nova Era, Antônio Dias, Coronel Fabriciano, Timóteo, Ipatinga, Tumiritinga, Resplendor, Galileia, Conselheiro Pena e Aimorés, em Minas. Baixo Guandu, Colatina e Linhares, no Espírito Santo, já foram alertados para o risco de enchentes.


Após receber o alerta da CPRM, a Câmara Técnica de Gestão de Eventos Críticos (CTGEC) do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Doce divulgou alerta para alteração abrupta do nível d’água, razão pela qual recomenda aos usuários que protejam suas instalações de captação durante a passagem da cheia. Não há razões para alarme sobre inundações nos municípios.


Jair Amaral/EM/D. A Press


BUSCAS E DESESPERO
Em Mariana, quem já havia enfrentado a fúria da lama se dividia entre a insegurança, a perplexidade e o desespero. A situação é pior para parentes de desaparecidos. Ontem, os números continuavam conflitantes. A Samarco estimava 13 trabalhadores sumidos na área da Mina do Germano, onde estourou a barragem de rejeitos e uma represa de água. O sindicato dos trabalhadores (Metabase) em Mariana falava em 15 operários e entre 10 e 15 moradores de Bento Rodrigues cujo destino ainda era desconhecido. Apenas uma morte está oficialmente confirmada. Um segundo óbito chegou a ser contabilizado, mas não foi estabelecida ligação com o desastre. Cerca de 500 pessoas foram resgatadas ao longo do dia e autoridades trabalhavam no cruzamento de informações para chegar ao real número de vítimas procuradas.


A Samarco admitiu que não houve alerta sonoro para alertar moradores que estavam no caminho da onda de lama, trabalho que foi feito por ligações telefônicas. O Ministério Público de Minas Gerais condenou a situação e informou que o alarme é obrigatório. O MP critica também a política de licenciamento de empreendimentos do tipo mantida pelo governo do estado, sustentando que faltam critérios técnicos, a fiscalização é omissa e nem as estruturas devidamente licenciadas têm segurança garantida. A Coordenação das Promotorias de Meio Ambiente instaurou investigação para apurar a tragédia, com prazo de 30 dias para conclusão. Não está descartado pedido de revogação de licença da mineradora ao fim do processo, que mobiliza 12 promotores.






ABALOS
Fazem parte da investigação do MP tremores de terra que foram confirmados por sismógrafos de Brasília e São Paulo nas proximidades da estrutura que entrou em colapso. O desafio agora é definir qual pode ser a relação dos abalos com a tragédia. Está em apuração também uma suposta explosão de uma mina da Mineradora Vale, do mesmo grupo da Samarco, que ocorreu em horário próximo ao do rompimento do reservatório de rejeitos. Porém, promotores são claros ao sustentar que a estrutura que se rompeu deveria ter capacidade para absorver ambos os fenômenos.
http://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2015/11/07/interna_gerais,705407/onda-de-lama-avanca-e-multiplica-estrago.shtml

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